Segundo o Michaelis:
Eficiência
[...] 2. rendimento
Ao vir à tona, no Brasil, as discussões sobre os testes em animais e suas implicações éticas, foi inevitável que certos chavões da comunidade científica também ascendessem e tomassem espaço e força na mídia e na cabeça dos leigos. Graças ao "caso Royal" se tornou comum expressões como "impossível curar o câncer sem testes em animais", "você escolhe entre os animais ou seu filho doente?" ou "Muitos medicamentos existem graças aos testes".
Dentro dessas argumentações, muitas vezes apelativas, que podem ser bem convincentes tanto para os leigos como para a própria comunidade científica, se esconde uma série de falácias e reiterações de dogmas que não só prejudicam os animais não-humanos como retardam o desenvolvimento da ciência.
O apelo ao nome de ciência nos períodos contemporâneos é algo muito forte. As pessoas mudam de hábito ao ouvir que é "cientificamente provado" alguma coisa. A mídia divulga tudo que parece crível (ou incrível) sobre os novos feitos dos cientistas. Os governos gostam de boas justificativas sobre o que se faz em ciência para investir em um ou outro projeto...
A valorização da ciência é, de forma geral, uma coisa boa, pois a ela é essencial para o desenvolvimento da nossa civilização, entretanto, certa precauções devem ser tomada para a ciência seja feita da maneira correta, pois caso contrário os efeitos podem ser desastrosos para todos nós, animais humanos e não-humanos.
Quem nunca frequentou ou não conhece como funciona o "meio científico" tende a aceitar mais facilmente certos argumentos, sem conseguir ver que esta seguindo algo preconizado com base em dogmas (princípios incontestáveis/indiscutíveis) bem antigos. O que é ainda menos óbvio é que os próprios cientistas quando seguem sistemáticas de pesquisas viciosas, baseadas em falsas verdades, acabam por cegar-se diante de metodologias que se tornam mais uma "tradição" do que um procedimento racional científico. Nisso, a maioria dos cientistas se prendem aos aspectos "locais" de suas pesquisas, acreditando que estão contribuindo globalmente para o desenvolvimento do conhecimento e da tecnologia, e acabam sem perceber que geralmente o somatório das pesquisas locais, acaba se anulando em uma escala global, resultando em ínfimos avanços efetivos na ciência.
Como resultado dessa tradição é comum que aconteçam coisas como nessa situação:
1-Inicialmente um grupo de pesquisa A apresenta três hipóteses, (X, Y e Z) sobre a espécie humana (pode ser algo sobre o comportamento, reação bioquímica a medicamento, desenvolvimento de doenças, etc);
2-Como "consagrado" pela ciência contemporânea, os cientistas deste grupo resolve testar em animais as hipóteses, para ver qual é mais plausível. Para isso, o grupo mostra para seus fornecedores (governo, centros de pesquisa, industria, etc) que as hipóteses são bem interessantes, úteis ou importantes de serem verificadas. Assim conseguem o investimento para realizar os experimentos;
3-No experimento resolvem realizar os testes em coelhos. Para isso se utilizam do maior número de coelhos que a verba permite, pois para experimento apresentar resultados mais confiáveis é necessário um maior espaço amostral. Após os experimentos, o grupo A conclui que a hipótese X é a que descreve melhor o fato sobre a natureza humana;
4-Como a divulgação de resultados é essencial do processo científico, o grupo A resolve submete seu artigo a uma revista de divulgação cientifica da área de conhecimento específica da questão. Como os a comissão julgadora da revista considera o assunto de interesse da comunidade cientifica, e vê que foram utilizados os métodos habituais para isso (teste em animais), resolve aceitar e publicar o artigo (e todos os pesquisadores ficam felizes);
5-Um outro grupo de pesquisa, o grupo B, se interessa pelo teor do artigo publicado e para verificar o resultado e sua reprodutibilidade, resolve reproduzir os testes com uma variante: realiza o experimento em ratos. O resultado que o grupo obtém é de que, com ratos o que acontece é Y, não X e resolve divulgar essa nova conclusão (e o item número 4 se repete);
6-Devido a divergência entre os resultados vários outros grupos de pesquisa (C,D,E,...) se interessam pelo assunto e resolvem fazer experimentos semelhantes, com animais diferentes ou com pequenas variações na metodologia (os grupos A e B também resolvem continuar com os experimentos, alterando uma ou outra variável em cada etapa). No processo são realizados experimentos em cães, gatos, mulas, cavalos, macacos e até elefantes... Centenas, talvez milhares de animais são "usados" nos procedimentos, e posteriormente "descartados". Alguns grupos obtém X, outros Y ou Z como resultado. Outras hipóteses U, V,W (...) surgem e são apoiadas em variações do experimentos. Os grupos publicam seus resultados para manter e justificar a pesquisa (retornando ao item 4). (Também é comum no processo alguém concluir, após verificar divergências nos resultados mesmo entre espécies muito semelhantes, como duas espécies de macacos, por exemplo, que não é possível extrapolar os resultados para a espécie humana através dos testes em animais não-humanos, sendo esses diferente para cada espécie)
7-Dezenas ou centenas de artigos são publicados sobre o caso em questão.O tempo passa e tudo que foi escrito fica apenas para os cupins nas seções de periódicos de algumas bibliotecas. Os pesquisadores se sentem satisfeitos por ter "contribuindo para a Ciência" e partem para outras pesquisas que julgarem mais interessantes (provavelmente usando animais também). Os financiadores da Ciência ficam satisfeitos de ver os financiados produzindo artigos e publicando bastante e continuam a financiar os experimentos com animais considerá-los indispensáveis e essenciais. [Possivelmente após algum tempo (anos/décadas...), alguém descobre com outra metodologia que o que acontece com os humanos é a hipótese H, que ninguém tinha levantado antes.]
8- Como muitos desses pesquisadores são docentes de universidade (ou tem outro vínculo qualquer com a educação), divulgam para seus alunos a "importância" dos testes em animais, "demonstrando" que são "essenciais" para a ciência. Reforçam o dogma de que é dessa forma que tem que ser feito e criam novos pesquisadores que, provavelmente, farão experimentos com animais também (retornando ao item 1).
Esse ciclo não é exceção. É o que acontece na grande maioria dos casos. Com a vasta produção científica desde o início do século vinte, não é difícil perceber que a grande maioria das pesquisas não apresenta melhoria para a Ciência e, enfim, para a Humanidade. Basta pesquisar na Internet ou se enfiar na seção de periódicos de uma biblioteca universitária grande (cuidado para não se perder no meio dos cupins e das infindáveis ) e dar uma "folheada" na produção dos últimos 110 ou 120 anos para ver que nem tudo que se pesquisou foi útil ou essencial para o progresso do nosso mundo, para a nossa saúde e para o nosso desenvolvimento tecnológico...
É comum alguém argumentar mostrando "bons resultados" que utilizaram os testes em animais. Porém é óbvio que alguns resultados terão resultado prático! A produção científica das ciências da saúde (principalmente, embora outras áreas também usem animais) é quase toda baseada ainda nos testes em animais. É óbvio que terão resultados positivos, mas a que custo? Com que rendimento? Hoje não existem medidas exatas de quantos experimentos com animais se tornam realmente úteis para, por exemplo, a produção de novos medicamentos (há muitas divergências principalmente no número de quantos [milhões de] animais são explorados no mundo). Mas como já foi dito, com base em toda produção cientifica baseada nos testes com animais, dizer que 1% dos experimentos são realmente aproveitados, seria uma estimativa muito otimista. Sempre vai ter alguém para defender uma pesquisa afirmando que ela é fundamental para a "cura do câncer" ou coisa do tipo. Quando invadiram o Instituto Royal para resgatar animais de suas corriqueiras seções de tortura, o argumento mais usado pelos defensores da instituição era o de que o instituto fazia experimentos essenciais para desenvolvimento de medicamentos fundamentais para o tratamento de câncer. Mentira. Lá não estava a "cura do câncer". Afirmar isso dá Ibope e causa polêmica, mas é mentira. A possibilidade de que, naquele instante, estivessem sendo realizados experimentos relevantes para a saúde pública é ínfima e insignificante, e dizer que essa ínfima possibilidade dá o direito de literalmente torturar seres capazes de sentir e sofrer (e não existem testes em animais que não sejam uma tortura) é, no mínimo uma monstruosidade.
Obviamente, vão contra-argumentar que isso (a baixa probabilidade de relevância) acontece em qualquer área da ciência, e de fato acontece. No processo científico é natural o processo de tentativa e erro. As hipóteses elaboradas devem ser testadas. Os resultados dos experimentos são fundamentais para as novas teorias. Entretanto, há uma larga diferença entre um experimento realizado num tubo de ensaio ou num computador com aqueles experimentos que abusam da saúde e da vida de um ser que é capaz de sentir dor, adoecer e sofrer.
Qualquer pessoa que tenha algum conhecimento acadêmico básico sobre métodos como, por exemplo, simulações computacionais (que podem simular desde o comportamento de estruturas moleculares até a mecanismos biológicos complexos em interação com fármacos) sabe que esses métodos já reduzem muito o uso de animais em testes, transformando os processos cientifico e industriais muito mais eficientes. Porém, uma análise mais crítica do especismo, ou da forma como tratamos os animais mostra que apenas reduzir não é o suficiente. Nada justifica infligir mais crueldade aos animais, pois não temos mais aquela visão que surgiu com René Descartes de que os animais são apenas máquinas e que não devem ter seus sentimentos considerados (alguns atribuem também a Descartes o pensamento de que os "animais não tem alma", mas isso será assunto de outro post). Hoje é inadmissível uma sociedade que não leva em consideração o sofrimento causado aos animais e dizer que a ciência precisa ser uma exceção à regra é menospreza-la e desconsiderar a própria capacidade humana de progredir intelectualmente e moralmente.
Os testes em animais precisam acabar. Não vamos parar com a ciência, vamos apenas modifica-la. Ao invés de aprimorarmos as tecnologias das jaulas e das técnicas de sacrificar os animais descartados, vamos investir em melhores hardwares e softwares, vamos desenvolver novos testes in vitro, vamos melhorar as observações dos animais na própria natureza, sem intervir em suas vidas, vamos utilizar mais as clínicas médicas para conhecer o funcionamento dos animais da nossa espécie...
O início dessa nova era, sem testes em animais, deve ser imediata, porque qualquer teste é imoral. O aprimoramento e a modificação da ciência não ocorre de um dia para outro, requer uma reconstrução de alguns ramos da ciência, que infelizmente foram montados sobre metodologias cruéis e ineficientes. Porém, certamente teremos de nossos filhos e netos o agradecimento de termos tomado a iniciativa de acabar com essa insanidade. Por favor, não vamos deixar para eles essa missão, pois milhares (ou milhões) de seres sofrem todos os dias com a nossa negligência. E não se preocupem, o progresso da ciência continuará.
Aproveitando o assunto para emendar em outro, de igual ou maior importância, ao argumentarem que essa reconstrução ou readaptação da ciência iria atrasar alguns experimentos já em andamento, nunca se esqueçam que existe um remédio que é estatisticamente muito mais eficiente contra o câncer, contra cardiopatias, contra obesidade e diversas outras doenças do que qualquer medicamento já testado em animais, com o benefício de não fazer mal a animal algum. É tão eficiente que se toda a população aderisse a esse remédio, iriamos curar (e prevenir) mais doenças do que todos os testes em animais já realizados. O nome deste remédio é VEGANISMO. Tal remédio, que consiste na simples ideia de evitar o sofrimento de qualquer animal, cura mais humanos do que toda a maldade que ironicamente fizemos aos animais com a desculpa de nos curar. Seja Vegano! Go Vegan!
Nenhum comentário:
Postar um comentário